domingo, 11 de junho de 2017

Quinto ano de "House of Cards" foca em autopreservação política e ascensão ao poder

O quinto ano de "House of Cards" era muito esperado, especialmente após a eleição de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos. Muito comparado ao presidente da vida real, Frank Underwood (Kevin Spacey) voltou em um cenário parecido ao visto, todos os dias, no noticiário: em um clima de insegurança, divisão e protestos. Há, no entanto, coisas que os diferenciam, a começar pelo inegável carisma do presidente democrata da ficção. Underwood, no entanto, mostra, ao longo da temporada, que possui uma característica que Trump parece não ter: autopreservação política.
Depois de criarem o caos e utilizarem os artifícios do terror e da guerra, o casal Underwood começa a temporada enfrentando uma acirrada eleição e tentando superar uma pontual desvantagem, apelando, para isso, a um discurso de ódio e "combate ao inimigo americano", como uma cortina de fumaça para esconder suas reais intenções.
Com um discurso incisivo contra as ameaças de um grupo terrorista, Frank parece se afastar do eleitorado, se "acastelando" na Casa Branca e tomando decisões pouco populares. Claire (Robin Wright), sua esposa e candidata a vice-presidente, no entanto, parece sofre menos os efeitos da reação populares mesmo, nos bastidores, apoiando os planos do marido. Mesmo assim, os dois têm seus planos ameaçados pelo candidato republicano Will Conway (Joel Kinnaman).
Quando a eleição parece perdida, Frank não hesita em, novamente, usar o terror para invalidar parte do pleito e prolongar a disputa eleitoral ao limite, sem pensar na população e levando o país a um período de incertezas. Apelando a manobras absurdamente sujas e restringindo o resultado do pleito a dois estados, o democrata acaba conseguindo a tão sonhada eleição, mas não tem tempo de comemorar.
Depois de eleito, Frank acaba precisando lidar com os "fantasmas" de seu passado e sofrendo os efeitos de seus planos para chegar ao poder. Através de uma investigação jornalística e da perseguição de inimigos políticos, ele acaba, novamente, paralisando o país com seus escândalos. Nesse novo cenário caótico, surge uma figura que, apesar da imensa força, sempre atuava em segundo plano: Claire. A vice-presidente ascende ao poder e chega ao centro do Salão Oval, representando uma esperança e, quem sabe, a maior derrota do marido.
Mesmo parecendo derrotado, Frank mostra, na verdade, que entende de autopreservação política. Com todos os movimentos friamente calculados desde os primeiros escândalos, ele mostra uma impressionante capacidade de lutar e, ao mesmo tempo, planejar uma saída estratégica para manter o poder nas mãos.
"House of Cards" retornou mostrando uma narrativa extremamente bem pensada e coerente, que prende o espectador com ganchos interessantes e uma discussão política assustadoramente atual, mesmo tendo sido elaborada antes de muitos dos acontecimentos do noticiário. Mais do que isso, a série continua estabelecendo um diálogo universal sobre política, inclusive com o Brasil, através de figuras que distorcem os conceitos sobre governar e que colocam seus interesses pessoais acima do coletivo.
O que a série faz melhor, no entanto, e construir personagens. É fascinante acompanhar os arcos dramáticos de Frank e Claire na temporada, caminhando juntos e, ao mesmo tempo, se direcionando aos interesses individuais. Fiel aos planos do marido e sempre um pedestal importante para ele, Claire não hesita em perceber que o cenário pode lhe ser favorável e, mesmo sem insistir abertamente, buscar encaminhar "as peças do tabuleiro" para o Salão Oval. Enquanto isso, o presidente, aparentemente vulnerável ao caos, mostra que sabe exatamente o que faz e, mesmo expondo fragilidades, não perde o controle de tudo, afinal, mais do que a presidência, ele quer mesmo é poder.
Vale prestar atenção, também, a duas figuras que se aproximam do casal Underwood: Mark Usher (Campbell Scott) e Jane Davis (Patricia Clarkson). Demonstrando interesse na vitória política dos protagonistas, claramente, os dois coadjuvantes estão, na verdade, encaminhando seus interesses particulares. Uma cena, em particular, representa isso: na posse de Frank, Usher se posiciona, estrategicamente, em um lugar semelhante ao do protagonista no início da série, quando elaborava seus planos para chegar ao poder.
Focando na autopreservação de Frank e na ascensão ao poder de Claire, que, inclusive, quebra a quarta parede e passa a interagir com o público como o marido, a quinta temporada de "House of Cards" é uma das mais interessantes da série e abre um caminho insuportavelmente curioso para um próximo ano, com um possível embate entre os desejos de poder de ambos. A guerra criada pelo casal, agora, ao que parece, virou um cabo de guerra.

HOUSE OF CARDS (quinta temporada)

ONDE: Netflix (todos os episódios disponíveis)

COTAÇÃO: ★★★★ (ótima)

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