sábado, 7 de fevereiro de 2015

Espaço para séries como "Felizes Para Sempre?" precisa ser repensado na TV brasileira


É curioso como os mercados televisivos se comportam de forma diferente. Nos Estados Unidos, por exemplo, as séries sempre foram um dos produtos mais valorizados dos canais, que reservam o horário nobre de suas programações para exibir produções caprichadas e histórias mais elaboradas. No Brasil, país influenciado pela telenovela, esses programas são "encaixados" na grade do canal em uma segunda linha de shows, que atingem um público mais específico. Nos últimos anos, a TV Globo tem apostado em boas séries e minisséries para "abrir" a programação, mas o canal ainda subaproveita esses produtos e perde ao não valorizá-los mais. "Felizes Para Sempre?", minissérie de Euclydes Marinho que terminou nesta sexta-feira (6), é só mais um exemplo desse cenário.
Baseada em um trabalho anterior de Marinho, "Quem Ama Não Mata" (1982), "Felizes Para Sempre?" explora as relações pessoais de um núcleo familiar aparentemente perfeito, mas que esconde segredos obscuros. Para tentar "apimentar" um casamento distante e marcado pela trágica morte de um filho, Cláudio Drummond (Enrique Diaz) e Marília (Maria Fernanda Cândido) procuram os serviços da prostituta Danny Bond (Paolla Oliveira), que acaba conquistando ambos e provocando reações diferentes. Movido pelo desejo, Cláudio faz da profissional do sexo seu objeto de luxuria, enquanto Marília se apaixona por ela, que lhe dá a atenção e o amor que o casamento não conseguiu.
As tramas se entrelaçam quando Denise, verdadeiro nome da prostituta, descobre os esquemas de corrupção da empreiteira de Cláudio, envolvida em superfaturamento de obras federais. Influenciada por Joel (João Baldasserini), ela decide reunir provas para levar o empresário para a cadeia para, depois, recomeçar a vida com Marília. Mentiras e traições marcam a relação desses personagens, que culmina no assassinato da prostituta, mas a série deixa em aberto, para as conclusões do espectador, o autor do disparo que matou Denise.
O resto da família Drummond também tem seus problemas amorosos. Hugo (João Miguel) descobre a infidelidade da esposa Tânia (Adriana Esteves) e a verdadeira paternidade do filho; o patriarca Dionísio (Perfeito Fortuna) enfrenta a tentação de viver um antigo amor, após 46 anos de um casamento com Norma (Selma Egrei); e Joel, o filho mais novo, não aceita ter sido trocado pela mulher (Carol Abras).
"Felizes Para Sempre" tem como principal qualidade a coragem em fugir do óbvio e abordar o amor sob diversos aspectos, influenciado pelo ideal romântico, mas, também, por vingança, desejo, possessão e ódio. O roteiro, bem amarrado, privilegiou os bons diálogos e as situações-limite em que os personagens eram colocados, criando tensão na medida certa. O final impressionou, especialmente, por não ter recorrido a uma explicação burocrática sobre o desfecho dos personagens. Tudo ficou subentendido, o que mostra um desejo em não subestimar o espectador, acostumado aos finais "mastigados" das novelas. Aqui, o ato em si contava mais do que as consequências dele. A trama política que envolveu a história foi "a cereja do bolo" e, bem executava, serviu para mostrar um outro tipo de amor: ao poder.
O direção geral de Fernando Meirelles trouxe para a televisão uma câmera mais aberta, influenciada pela carreira cinematográfica do diretor. As tomadas eram grandiosas, mas também sabiam valorizar os detalhes nas cenas mais introspectivas. A trilha sonora também merece destaque, indo de Nina Simone a Tom Zé, com músicas sempre muito bem escolhidas para pontuar a série.
Não há como começar a falar do elenco sem citar o trabalho de Paolla Oliveira, que mexeu com o imaginário e o desejo de homens e mulheres. Marcada por suas mocinhas, a atriz pareceu despida de pudores e caricaturas para viver a prostituta Danny Bond. A série, no entanto, não teria sido bem sucedida se não fossem as atuações de outros nomes como Maria Fernanda Cândido, Enrique Diaz, João Miguel, Selma Egrei (sempre ótima), Perfeito Fortuna e Cassia Kis Magro.
Assim como aconteceu em "Amores Roubados" e "O Canto da Sereia", "Felizes Para Sempre?" terminou mostrando uma boa dramaturgia, mas deixando a sensação de ter sido mal aproveitada, apesar da repercussão que conseguiu. Já está mais do que na hora de as engessadas grades dos canais abrirem caminho para que as séries e minisséries se desenvolvam mais no Brasil. "Felizes Para Sempre?" foi ótima e merecia um espaço mais digno na programação.
E uma dica: a minissérie tem potencial para seguir um caminho já muito explorado no mercado americano, em que o programa volta com outros personagens e histórias diferentes em novas temporadas. Valeria a pena pensar no caso...


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