quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

"Altered Carbon" desperdiça potencial apelando ao folhetim e perde tempo com tramas paralelas


Dizem que a morte é a única certeza da vida, mas, no mundo futurista de "Altered Carbon", esse destino é praticamente improvável. A humanidade arrumou uma forma de driblar a morte e atingir a eternidade. Para isso, a consciência de uma pessoa é armazenada em um cartucho, implantado na coluna vertebral, que, assim como um HD externo, armazena memórias e informações para serem transferidos para outro corpo.
O avanço permite que as pessoas vivam para sempre, apenas trocando de "capa", como são chamados os corpos, sempre que necessário. A única forma de morte real é se o cartucho que armazena as informações for danificado. Toda essa tecnologia, no entanto, tem um preço, o que faz com que os mais ricos sejam os maiores beneficiados. Às classes mais baixas, resta apenas a possibilidade de um acordo com os mais abastados e autoridades para conseguirem uma nova "capa", além, é claro, de rezar para não terem o cartucho danificado. A religião, aliás, também é outro aspecto da sociedade afetado pelo avanço tecnológico. Contra aqueles que decidiram superar a mortalidade, surgem grupos que pregam a crença nas vontades de Deus e nos corpos criados por Ele.
É nesse contexto futurista que o espectador conhece Takeshi Kovacs (Joel Kinnaman), um rebelde que ficou preso por 250 anos e recebeu uma nova "capa" para solucionar o assassinato de Laurens Bancroft (James Purefoy), um homem que construiu fortuna ao longo das centenas de anos já vividos. Conhecido como o último Emissário vivo, uma espécie de guerreiro com resistência e capacidade de destruição, Kovacs recebe a promessa de um bom pagamento e da liberdade em troca da resolução do crime.
Ao longo da investigação, Kovacs conhece a policial mexicana Kristin Ortega (Martha Higareda), que já tinha uma relação conflituosa com Bancroft. Além do serviço para o milionário, o protagonista ainda acaba tendo que lidar com problemas envolvendo a personalidade que ocupava sua "capa" anteriormente e um mistério relacionado ao assassinato de uma jovem, encontrada depois de ter caído do céu.
"Altered Carbon" mostra, logo no início, muito potencial para criar uma história conduzida pelos conflitos daquela sociedade, especialmente relacionados às desigualdades sociais, religião, violência e ao peso de uma vida eterna. Isso, no entanto, logo fica para trás e o roteiro segue por um caminho mais folhetinesco, que aposta em viradas e ganchos facilmente encontrados em novelas. Isso fica muito claro com a entrada da irmã de Kovacs, Reileen (Dichen Lachman), na história. A escolha do roteiro em reduzir a trama a um conflito familiar faz com que a série perca força e desanime do meio para o fim. Essa tendência ao folhetim também se reflete nos diálogos, que caem com frequência em clichês.
O roteiro também apresenta problemas de desenvolvimento, com diversas tramas paralelas que dão a impressão de terem sido criadas para sustentar a história central, que dificilmente chegaria a dez episódios se não fosse por elas. Enquanto algumas se mostram desnecessárias, outras ficam apenas no campo da superficialidade e, com soluções fáceis, não entregam tudo que prometem. A investigação que dá o pontapé inicial no conflitos, por exemplo, desperta pouca curiosidade e tem um desfecho que deixa muito a desejar.
Nem tudo, no entanto, parece errado em "Altered Carbon". As sequências de ação são boas e a ambientação futurista funciona bem, mesmo parecendo ter bebido da fonte de "Blade Runner". O desenvolvimento de alguns personagens também é um ponto positivo. Um dos exemplos disso é a policial Ortega, que ganha vida própria interessante na trama e não fica apenas restrita à dependência de Kovacs.
A escolha da produção por retratar tão explicitamente o sexo e a violência se mostra acertada, especialmente quando se fala nesse último aspecto. É coerente mostrar uma sociedade que banaliza atitudes e reações violentas, afinal, tirando os casos extremos, é possível "renascer" em um novo corpo. Isso também mostra como as pessoas que têm acesso mais fácil às "capas" se sentem mais entediadas com a vida eterna e não se privam de ultrapassar certos limites.
Considerada uma aposta do serviço de streaming Netflix, "Altered Carbon" acaba sendo um entretenimento mediano, que até pode acabar em uma maratona. A sensação final é que a história tem o potencial desperdiçado por um roteiro que escolhe seguir o caminho mais fácil, privilegiando ganchos folhetinescos e soluções apressadas, que desvalorizam o produto. Seria melhor, em uma eventual segunda temporada, um enredo mais condensado e profundo para os conflitos que ainda podem ser explorados.

ALTERED CARBON (primeira temporada)

ONDE: Netflix (todos os episódios disponíveis)

COTAÇÃO: ★★ (regular)

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