sábado, 18 de janeiro de 2014

Final moralista não ofusca qualidades de Amores Roubados

Algo muito positivo aconteceu na televisão brasileira nas últimas duas semanas. Com um público acostumado às tramas "abertas", que se transformam diariamente e de acordo com as respostas do espectador, o país da telenovela pôde conhecer a força de um produto "fechado", mais bem pensado e acabado quando falamos em produção e texto. A exibição de "Amores Roubados", minissérie escrita por George Moura na TV Globo, deixou claro que o público também se interessa por histórias mais rebuscadas e diferentes formatos de dramaturgia.
Baseada no livro "A Emparedada da Rua Nova", de Carneiro Vilela, "Amores Roubados" explorou o nordeste semiárido do Brasil como pano de fundo para a história de Leandro (Cauã Reymond), um sommelier que passou anos em São Paulo e, anos depois, está de volta à sua terra natal. Filho da prostituta Carolina (Cássia Kis Magro), ele é uma espécie de Don Juan, capaz de conquistar todas as mulheres que quiser. Amante de Celeste (Dira Paes), a mulher do poderoso Deodoro Cavalcanti (Osmar Prado), um exportador de frutas de sucesso. 
Ampliando suas conquistas amorosas, Leandro se envolve, ainda, com Isabel (Patrícia Pillar) e Antônia (Ísis Valverde), esposa e filha do empresário Jaime Favais (Murilo Benício), proprietário de uma vinícola da região. Fazendo o papel de coronel controlador, Jaime descobre o caso do rapaz com Isabel e decide se vingar, executando um plano que culmina na morte de Leandro.
Mesmo ausente do desfecho da minissérie, Leandro continua determinando o destino dos personagens no fim. Enquanto Isabel é internada pelo marido, após descobrir que ele foi o responsável pelo assassinato, Antônio também descobre os crimes do pai e o confronta. Grávida do protagonista, a mocinha vê o Jaime cair de um penhasco ao descobrir o romance dos dois. Após a morte do vilão, Antônia e Isabel têm um final feliz ao lado do pequeno Leandro, filho do relacionamento entre os protagonistas.
Se tiver que ser definida em uma palavra, posso dizer que "Amores Roubados" foi surpreendente. A trama trouxe para a telinha o cenário de um contemporâneo Nordeste brasileiro, distante de todos os clichês já apresentados sobre aquela região do país. A transposição da obra de Carneiro Vilela para os dias atuais foi outra boa qualidade da minissérie, que trouxe os dilemas do coronelismo do Brasil para o tempo presente.
Contribuindo para o sucesso da trama, a direção firme e precisa foi um show à parte. A belíssima fotografia de Walter Carvalho também merece destaque. A trilha sonora, muitas vezes inusitada e contrastante ao cenário seco do sertão do Brasil, foi uma grata surpresa. O roteiro foi, de um modo geral, muito bom, com recursos narrativos eficientes e instigantes. No final da minissérie, porém, o autor apostou em um final moralista, diferente da obra original, punindo os vilões e dando um final feliz aos mocinhos. Isso prejudicou o desfecho da série e frustrou as expectativas dos que esperavam por um fim impactante.
O elenco, mesclando atores do primeiro time da Globo com rostos pouco conhecidos, também pode ser apontado como um fator do sucesso. Cássia Kis Magro, Patrícia Pilar, Dira Paes, Osmar Prado e Murilo Benício estavam excelentes em seus papéis. Ísis Valverde e Cauã Reymond, em ótimo momento, fazem seus melhores trabalhos na televisão. Antônio Vieira Braga, Irandhir Santos e Jesuíta Barbosa também deixaram boas marcas na série.
Mesmo com a "escorregada" do final, "Amores Roubados" foi um êxito deste início de ano na TV. Charmosa, caprichada e instigante, a trama mostrou que o público também é ávido por novidades e qualidade dramatúrgica. Espera-se que esse sucesso possa abrir caminho para novos projetos do gênero.

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