domingo, 24 de janeiro de 2016

"Amor & Sexo" presta serviço com entretenimento que prega respeito e quebra de tabus

Divulgação/TV Globo
Lançados em 2012, os dois volumes de "O Livro do Amor", escritos pela psicanalista Regina Navarro Lins, trouxeram uma análise sobre a história do amor, do sexo e dos relacionamentos ao longo de cinco mil anos, desde a Pré-História até os dias atuais. Neles, a psicanalista reflete sobre a forma como o afeto e as relações sexuais foram tratados pela sociedade em diversos períodos e, ao mesmo tempo, a autora traça um paralelo com a atualidade para mostrar de que formas esses pensamentos e comportamentos afetaram o jeito de nos relacionarmos com o sexo agora. Entre as diversas reflexões propostas, Regina sempre chama a atenção para a forma como o sexo é, geralmente, encarado pela sociedade, sendo tratado como "sujo", "vergonhoso", algo que não deve ser falado e cujo prazer deve ser "condenável", heranças essas incorporadas a partir de comportamentos antigos. 
Por tudo isso, me parece importante que haja um espaço na televisão brasileira para o programa "Amor & Sexo", que teve a estreia na nona temporada exibida neste sábado (23), na TV Globo. Nesse primeiro episódio de 2016, ficou claro, mais uma vez, que a atração volta com a proposta de divertir o espectador e, ao mesmo tempo, buscar tratar de temas considerados "tabus" de uma forma orgânica, leve e respeitosa.
Na estreia, o programa divertiu e informou o público com discussões e brincadeiras relacionadas à prática dos "nudes" e ao respeito à privacidade. Em outro quadro, a atração propôs um encontro às escuros entre pessoas que nunca se viram, deixando a possibilidade para que elas se beijassem ou não. A brincadeira veio depois de um debate sobre a influência da tecnologia nos relacionamentos, que podem facilitar uma inversão de etapas e permitir, por exemplo, que duas pessoas façam sexo virtual sem nunca terem tido um contato físico, como o beijo. 
"Amor & Sexo", assim como em outras temporadas, também voltou a levantar a bandeira da diversidade e estreou o quadro "Bishow", em que drag queens iniciam o treinamento de três homens para inseri-los nesse universo. De forma leve e, até mesmo, didática, os participantes cumpriram provas que também tinham o intuito de abrir questionamentos sobre preconceito, ideologia de gênero e respeito às diferenças. 
Divulgação/TV Globo
Propondo entretenimento ao público, "Amor & Sexo", na verdade, acabou encontrando uma via mais fácil para dialogar com o público sobre temas tratados pela sociedade como "obscuros", que devem sempre ser empurrados para "debaixo do tapete". O programa soube aplicar bem uma prática utilizada, vez ou outra, em outros produtos de entretenimento, como teatro e cinema: através do riso e da descontração, assuntos geralmente delicados e tratados com pudor são levantados e encarados de forma natural, como deveriam ser desde o início.
Cada vez mais encarado como um "show", a atração ganha muito com o espaço musical, representado por números protagonizados pela apresentadora, Fernanda Lima, e pela escolha do repertório da banda do programa. Cabe aqui, também, um elogio à condução de Fernanda, sempre muito à vontade e disposta a entreter o público. Os jurados, tal qual os clássicos programas de calouros da TV, continuam se mostrando bons elementos para a diversão e informação propostas, com destaque para Xico Sá, Mariana Santos, José Loreto, Otaviano Costa e Regina Navarro Lins, autora dos livros citados no início do texto. 
Mesmo que não tenha tido essa pretensão, "Amor & Sexo" presta serviço à televisão brasileira, pois torna naturais e despudoradas, nem que seja por uma hora apenas, questões relacionadas ao "sujo" e "errado" sexo. Programas como esse sempre deixam a esperança de que a TV possa ser, cada vez mais, utilizada de forma inteligente e divertida para a discussão de temas considerados delicados, mas de fundamental importância para a informação e evolução da sociedade. 


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