quarta-feira, 26 de abril de 2017

"Bates Motel" chega ao fim respeitando "Psicose", mas indo muito além da trama original


Não havia muitos segredos, já que a trama do filme e do livro "Psicose" é uma das mais conhecidas da história do entretenimento. Isso complicava ainda mais a tarefa de recriar esse universo, mas, agora que já foi encerrada, é possível dizer que "Bates Motel", série que funcionava como um prelúdio da original, cumpriu com louvor a tarefa dada. Mais do que isso, sempre com respeito à história-base, a produção soube caminhar com as próprias pernas e ir muito além do mostrado anteriormente.
Na quinta e última temporada da série, que terminou na última segunda-feira (24), finalmente os espectadores viram a história chegar aos fatos retratados da obra literária e no clássico de Alfred Hitchcock. Depois da morte de Norma (Vera Farmiga), Norman (Freddie Highmore) se isola, cada vez mais, em seu casarão e, por conta de seus problemas mentais, passa os dias acreditando ainda estar na presença da mãe.
Solitário, Norman conhece Madeleine (Isabelle McNally), a dona de uma loja na cidade. Casada com Sam (Austin Nichols), a jovem também sofre por estar sempre sozinha, por conta das viagens do marido, e também se empolga com a amizade do dono do Bates Motel. Mas, Norman, na verdade, se sente atraído por ela por conta da semelhança física com Norma, o que faz com que a outra metade de sua personalidade se sinta ameaçada.
Ao receber Marion Crane (Rihanna) como hóspede em seu motel, Norman descobre que ela é amante de Sam e a história chega, então, à clássica "cena do chuveiro". Ao contrário da versão original, no entanto, Marion se salva. A vítima da vez é Sam, que não escapa de Noman enquanto tomava banho no quarto da amante.
O fim da temporada também mostrou o ápice da loucura de Norman, com momentos mais constantes de perda de consciência do personagem. Acreditando ser Norma, o jovem tenta se livrar da prisão, por conta de uma série de assassinatos cometidos, e ainda enfrenta o espírito de vingança de Alex Romero (Nestor Carbonell), que foge da cadeia para fazer Norman pagar pela morte de Norma. 
No fim, em um "encontro" familiar, Norman acaba sendo morto pelo irmão, Dylan (Max Thieriot), que tenta se defender de um ataque assassino do protagonista. A morte, ali, representa o desfecho ideal para ele, que, finalmente, pode "estar" no mesmo lugar que Norma.
Sem períodos de menor interesse, pode-se dizer que "Bates Motel" sempre se mostrou interessante e nunca criou "barrigas" ou momentos desconexos do contexto original. O bom roteiro construiu temporadas bem amarradas, que souberam abrir caminho para os aguardados momentos retratados no livro e no filme originais. Na difícil tarefa de contar novamente uma história já bem conhecida, a série não fez feio e soube respeitar as coerências do que já existia, mas, ao mesmo tempo, não se furtou em criar novos momentos e desfechos para a trama.
O mais interessante foi a construção do relacionamento entre Norman e Norma, explorado com sutileza e, ao mesmo tempo, muito impacto pelo roteiro. A série mostrou a proteção da mãe em relação ao filho com problemas mentais, mas, em paralelo, como ambos se "alimentavam" de uma forma doentia daquele tipo de relação, que culminou na morte de Norma e nos momentos em que Norman assumia a personalidade dela.
Vale destacar os trabalhos excepcionais de Vera Farmiga e Freddie Highmore, que souberam explorar muito bem as personalidades complexas dos personagens centrais. Ambos demonstraram força e fragilidade na medida certa, além de terem conseguido transmitir a relação de dependência e amor que mãe e filho nutriam.
Por fim, é preciso dizer que "Bates Motel" não se deixou seduzir pelo lado mais fácil da adaptação e utilizou apenas ideias já existentes para construir uma trama própria. A clássica cena do chuveiro, por exemplo, nem de longe pareceu uma cópia barata da original. Com uma outras atmosfera de suspensa construída, o momento em que Norman esfaqueia sua vítima foi mais realista e nem mesmo utilizou recursos sonoros que lembrassem da morte de Marion Crane na versão de Hitchcock. Ponto para a coragem dos roteiristas, produtores e diretores da série.
"Bates Motel" terminou sua trajetória na TV com um saldo dos mais positivos. Foi uma série que, com inteligência, aproveitou o melhor de uma trama conhecida e, indo mais além, soube impor personalidade própria e desenvolver mais o desfecho de clássicos personagens. Para quem não acompanhou durante esses cinco anos, vale, agora, com certeza, fazer uma maratona.

BATES MOTEL (quinta e última temporada)

ONDE: A&E (Estados Unidos); ainda sem data de lançamento no Brasil

COTAÇÃO: ★★★★ (ótima)

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