domingo, 9 de abril de 2017

Trama arrastada e ausência de personalidade fazem de "Punho de Ferro" o escorregão da Marvel


Até aqui, no cinema e na televisão, a Marvel mostrou uma invejável capacidade de construções de universos e histórias entrelaçadas. Falando especificamente da TV, depois de "Demolidor", "Jessica Jones" e "Luke Cage", chegou a vez de introduzir o "Punho de Ferro", o último dos "Defensores", série que estreia ainda este ano no Netflix. Mas, ao contrário dos outros lançamentos, a nova empreitada ficou marcada pelo primeiro "escorregão" desse universo.
A trama de "Punho de Ferro" começa com a volta de Danny Rand (Finn Jones), que, quando criança, foi dado como morto após um acidente aéreo no Himalaia. Com os pais mortos, o garoto é salvo por monges e é levado para K´un-Lun, um lugar místico onde ele aprende artes marciais e recebe os poderes do Punho de Ferro. Com suas novas habilidades, ele deve proteger K´un-Lun do grupo criminoso O Tentáculo, que também aparece em outras tramas da Marvel no serviço de streaming.
Aproveitando-se de uma passagem, que se abre esporadicamente, Danny deixa K´un-Lun e parte de volta para Nova York, para descobrir os responsáveis pela morte de seus pais e retomar o relacionamento com pessoas do seu passado, como Ward (Tom Pelphrey) e Joy (Jessica Stroup) Meachum, filhos de Harold (David Wenham), o sócio do pai do protagonista.
Depois de chegar e ameaçar a condução dos negócios na empresa da família, Danny descobre que O Tentáculo está infiltrado em seus negócios e forçou Harold a ser dado como morto. Ele, então, decide usar seus poderes de "Punho de Ferro" para derrotar o grupo criminoso e se vingar pela morte dos pais. Para isso, ele é ajudado por Colleen (Jessica Henwick), a sensei de um dojo local, e Claire (Rosario Dawson), a enfermeira presente em todas as histórias do universo Marvel na TV.
O primeiro problema detectável em "Punho de Ferro" é a ausência de personalidade da série. Estética ou musicalmente, "Demolidor", "Jessica Jones" e "Luke Cage" souberam construir as identidades de cada um dos personagens. Cada série tem sua paleta de cores, seu ritmo narrativo, ambientação específica e uma trilha sonora condizente com a trama. Agora, no entanto, o último defensor não se destaca por nenhuma dessas qualidades. Essa falta de conceito enfraquece a introdução desse quarto elemento que, com isso, acaba parecendo ser o elo menos importante de todos.
Outro ponto fraco é a construção do roteiro. Não sou especialista em Marvel ou leitor dos quadrinhos, mas, ao que parece, "Punho de Ferro" parece ser uma história de forte apelo místico, sobre habilidades extraordinárias conseguidas através de técnicas milenares, mas os roteiristas parecem ter escolhido ignorar essa premissa. A série flerta com esse lado várias vezes e até chega a mencioná-lo nos discursos, mas, em seguida, opta-se por deixar "os pés no chão" e conferir a ela um apelo mais "realista", uma escolha errada considerando o fato de que esse viés poderia ser a personalidade que faltou à produção.
Há problemas, ainda, com o andamento dos episódios, que, apesar de aceitáveis, começam mornos e encontram um desenvolvimento bastante arrastado no meio da temporada, que melhora quando está perto do fim. Algumas reviravoltas da trama são mal aproveitadas e acabam parecendo desfechos de últimos capítulos de algumas novelas brasileiras, que acontecem apenas por estarem perto do fim. Também não considero um acerto o desenvolvimento da história d´O Tentáculo, que bem introduzida em "Demolidor", perde força e beira à banalidade.
De bom, posso pontuar o elenco, que cumpre bem o papel dado, e o desenvolvimento de alguns personagens, como Madame Gao (Wai Ching Ho), já vista em "Demolidor", mas que ganha um espaço maior e não faz por menos. É, para o Punho de Ferro, uma antagonista mais interessante que Bakuto (Ramon Rodriguez), outro representante d´O Tentáculo, mas mal inserido no contexto.
Diante desses problemas, fica nítido perceber a diferença entre "Punho de Ferro" e as outras séries do universo Marvel. Sem personalidade e com um roteiro falho, a série acabou se mostrando a base mais enfraquecida para a construção de "Os Defensores". É um escorregão, mas que, dado o histórico, ainda representa, no máximo, uma "torção" no caminhar da Marvel na televisão. Nada que uns reparos não resolvam.

PUNHO DE FERRO (primeira temporada)

ONDE: Netflix (todos os episódios disponíveis)

COTAÇÃO: ★ (ruim)

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