terça-feira, 29 de maio de 2018

"13 Reasons Why" amadurece personagens, mas cansa com repetições e enrolações

Com a proposta de discutir questões como bullying, suicídio, assédio, depressão e estupro dentro do universo escolar, a série "13 Reasons Why" teve um primeiro ano polêmico e que fez muito barulho, especialmente por conta de especulações sobre a receptividade que esses temas teriam junto ao público jovem e de que forma eles poderiam influenciar na vida deles. Agora, na segunda temporada, a série do Netflix tenta dar continuidade a essa proposta e evolui bastante na construção dos personagens, mas ainda deixa muito a desejar em relação ao ritmo narrativo e escolhas repetitivas do roteiro.
Nos novos episódios, disponibilizados no serviço de streaming, todos estão vivendo os desdobramentos causados pelo suicídio de Hannah Baker (Katherine Langford) e das fitas deixadas por ela, que narravam problemas vividos por ela no ambiente escolar. O segundo ano mostra o julgamento de uma ação, movida pelos pais da jovem, contra a escola, acusada de não ter atuado para evitar que ela tomasse a decisão de tirar a própria vida.
Com o processo no centro da cobertura da mídia local, os colegas de Hannah sentem a pressão de testemunharem para ambas as partes envolvidas. Apenas Clay (Dylan Minnette) não entende os motivos de não ter sido chamado para depor. Ainda perturbado pela morte de Hannah, o jovem apenas reage aos relatos dos envolvidos, inclusive aos mentirosos, e se vê envolvido em uma nova busca pela verdade: quer provar a culpa de Bryce (Justin Prentice) nos estupros de Hannah e Jessica (Alisha Boe), tentando, inclusive, mostrar que existe a repetição de um comportamento que precisa acabar.
O destaque positivo da segunda temporada de "13 Reasons Why" é a construção mais madura dos personagens, que, em geral, deixam algumas características superficiais de lado e evoluem. Jessica ganha mais nuances por conta dos traumas causados pela violência sexual sofrida e das tentativas de superá-los; Alex (Miles Heizer), se recuperando de uma tentativa de suicídio, tenta retomar a vida e a memória dos acontecimentos anteriores; e Justin (Brandon Flynn), depois de um tempo afastado e vagando pelas ruas, enfrenta conflitos anteriores e o vício em drogas para seguir em frente.
Mesmo que a maior parte dos personagens tenha evoluído no segundo ano, alguns não saem do lugar. Clay, levando em conta a importância dada a ele pelo roteiro, não tem grandes funções e, gravitando em torno dos outros colegas, sempre parece perdido. A trama até ensaia construir alguma complexidade no personagem, com sinais de rebeldia e de dúvidas sobre o comportamento de Hannah, mas tudo isso acaba tendo uma abordagem superficial. No fim, Clay só consegue soar como chato. Como ele, Tony (Christian Navarro) e Courtney (Michele Selene Ang) também são mal aproveitados e rendem menos do que poderiam.
Apesar das boas novas nuances dos personagens, a temporada traz episódios cansativos, sustentados por recursos narrativos repetitivos e cenas desnecessárias, que servem apenas para enrolar os desfechos. Os depoimentos no tribunal e as fotos que surgem para tentar comprovar a culpa dos crimes de Bryce têm a mesma função das fitas do primeiro ano. Por não trazer nada de novo, a dinâmica não empolga. O último episódio, construído a partir de um desfecho satisfatório dos principais acontecimentos, é o principal exemplo da enrolação da série, trazendo sequências excessivamente prolongadas e pouco importantes.
Novamente, a principal polêmica de "13 Reasons Why" está relacionada aos temas. Se, no primeiro ano, as cenas do suicídio de Hannah geraram controvérsia, agora, o foco fica na violência vivida por Tyler (Devin Druid), vítima do grupo dominante do colégio. Depois de enfrentar os valentões, o jovem é covardemente agredido e humilhado em uma cena forte, que mostra, inclusive, o cabo de um esfregão sendo enfiado no ânus dele. Espectadores prometeram boicotes e criticaram a intensidade da sequência, mas ela serve para mostrar que o bullying e a violência escolar podem ser cruéis e afetar profundamente a vida de alguém.
Ouvi muitos argumentos preocupados com os efeitos que a série pode ter em adolescentes que estejam passando pelos mesmos problemas na escola. Sigo acreditando, porém, que trazer esses acontecimentos à luz, todos já vistos ou relatados em noticiários pelo mundo, é muito melhor do que continuar com essas questões "debaixo do tapete", dizendo que os efeitos do bullying são supervalorizados. Para isso, também importante que os temas provoquem um diálogo, que devem ser levados para o dia a dia. A segunda temporada também traz uma discussão sobre o assédio e a violência sexual de mulheres, que, inclusive, poderia ter ganho mais espaço nos episódios.
No fim, "13 Reasons Why" oscila muito entre boas qualidades e defeitos profundos. Com personagens mais bem construídos e temas relevantes, a série erra com os roteiros cansativos, que privilegiam repetições e enrolam o espectador para um desfecho pouco impactante. A enrolação trazida por cenas e conflitos desnecessários levam a uma perda importante de força narrativa, que também geram um esvaziamento do interesse do espectador.

13 REASONS WHY (segunda temporada)

ONDE: Netflix (todos os episódios disponíveis)

COTAÇÃO: ★★ (regular)

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