sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Os anti-heróis da televisão e o fascínio que exercem sobre o público

Confesso que ainda estou sobre o efeito do final de "Breaking Bad", série sobre a virada na vida de um professor de química que se transforma em um criminoso produtor de metanfetamina. Ao longo de cinco temporadas, Walter White (Bryan Cranston) foi mostrando uma personalidade cruel e fria, contrária ao jeito doce e familiar que o público conheceu primeiro. A questão mais interessante que "Breaking Bad" deixou talvez seja: Walt transformou-se no ganancioso vilão Heisenberg (nome pelo qual ficou conhecido no mundo das drogas), ou Heisenberg sempre esteve adormecido dentro do pacato professor de química?
A dubiedade do anti-herói de "Breaking Bad" dividiu o público. Extremamente carismático, Walt ganhou a simpatia do espectador logo de cara: era um homem trabalhador, amoroso, que lutava pelo bem estar da família. Ao descobrir um câncer inoperável, ele transgrediu sua personalidade e entrou para o mundo do crime, sendo capaz de atos cruéis para se manter no ramo e, segundo ele, em nome da família. As atitudes de Walt, no entanto, fizeram o espectador se questionar: eu quero que esse homem sofra e pague por seus crimes ou quero que ele saia impune e recomece a vida?
Um vídeo que circula no Youtube define bem a relação dúbia do público com o personagem. Enquanto Walt mata seus inimigos no último episódio, os espectadores vibram com a atitude, parecendo provocar uma catarse e um sentimento torto de justiça. Ao final, no momento da morte do protagonista, o público assiste à cena e se silencia com o desfecho, como se entendesse que aquele destino era o merecido para Heisenberg.
A riqueza de sentimentos e reações provocados pelos anti-heróis talvez explique a proliferação de personagens do gênero na televisão. A teledramaturgia, especialmente a norte-americana, tem apostado nas contradições das atitudes dos personagens para emplacar séries, minisséries ou telefilmes. E, alguns deles, são tão interessantes que já fazem história...

Frank Underwood (Kevin Spacey) - House of Cards

Tal qual Walter White, o congressista americano Frank Underwood conquista o público com seu carisma e simpatia aparentes. Na série do Netflix, que estreia sua segunda temporada em fevereiro de 2014, Frank se decepciona quando perde um cargo em Washington prometido pela campanha do presidente que ajudou a eleger. Usando tramoias e jogos políticos, o congressista sabota e, ao mesmo tempo, resolve crises da Casa Branca, para mostrar que é um aliado necessário. Simpático e solícito, Frank Underwood é um verdadeiro "lobo em pele de cordeiro", que cativa e provoca o ódio do público.

Raymond Reddington (James Spader) - The Blacklist

Ele é um dos criminosos mais procurados do mundo e o prisioneiro dos sonhos dos agentes do FBI e da CIA. Um belo dia, Raymond Reddington se entrega espontaneamente e ainda se oferece para revelar uma lista com os bandidos mais visados do planeta. Porém, tudo tem um preço para Reddington e ele só aceita fazer isso se trabalhar diretamente com a agente Elizabeth Keen (Megan Boone). Tentando fazer o papel de paladino da justiça, ele não deixa de lado sua vida de contravenção. Sarcástico, ele ganha facilmente a simpatia de quem assiste, além de provocar empatia com seus traumas do passado e a misteriosa dedicação à Keen. Mas, não dá para esquecer que, mesmo com tudo isso, Raymond Reddington ainda está do lado negro da força.

Amanda Clarke/Emily Thorne (Emily VanCamp) - Revenge

Amanda Clarke foi afastada do pai e ficou internada em uma instituição para menores depois que ele foi acusado de terrorismo e traição. Anos depois, livre e rica, Amanda volta para os Hamptons para se vingar de todos aqueles que incriminaram seu pai, principalmente dos Grayson. Conhecida, agora, como Emily Thorne, a jovem se aproxima de Daniel Grayson (Joshua Bowman) e já está prestes a subir ao altar com ele, para desagrado de sua inimiga Victoria (Madeleine Stowe). Atitudes condenáveis e sentimentos de ternura e amor fazem dessa personagem uma anti-heroína digna de torcida e condenação.


Gregory House (Hugh Laurie) - House

Médico brilhante, fascinado por casos misteriosos e totalmente avesso ao relacionamento com seus pacientes. Tem tantas reservas ao se envolver com outras pessoas que parte sempre do princípio de que "todo mundo mente". Assim é Gregory House, um homem irônico, politicamente incorreto e que faz de tudo para esconder sentimentos afetuosos. Suas atitudes foram obviamente causadas por relações traumáticas, que o tornaram frágil e arredio, mesmo que esconda isso atrás de uma "casca grossa". Conquistando a gratidão dos pacientes e, ao mesmo tempo, afastando quem se aproxima dele, House é uma fascinante contradição de sentimentos.

Nicholas Brody (Damian Lewis) - Homeland

O anti-herói de "Homeland" é um sargento do exército norte-americano que vai para a guerra do Iraque e é dado como desaparecido por anos. Quando aparece, volta ao seu país e é recebido com todas as honrarias de um herói, pelo governo e pela família. O carisma e a empatia que provoca inicialmente escondem, na verdade, as verdadeiras intenções do sargento: agora como agente infiltrado da Al-Qaeda, Brody não exita em matar seus próprios companheiros de farda em nome de sua nova causa. Herói ou vilão da nação?

Don Draper (Jon Hamm) - Mad Men

O publicitário Don Draper é o diretor de criação da agência Sterling Cooper, na Nova York dos anos 60. Brilhante profissional, ele atrai prestígio para a empresa e aparenta ser um homem que todos devem admirar. Todos os seus êxitos escondem, na verdade, uma personalidade problemática, que faz com que ele afogue suas mágoas na bebida e no cigarro. Pai de uma família tradicional do subúrbio americano, ele se transforma em outro quando está envolvido pelo calor da metrópole e revela-se um adúltero inveterado. A pergunta que fica é: as atitudes do publicitário podem ser justificadas pelos traumas e crises que enfrentou na vida?

Dexter Morgan (Michael C. Hall) - Dexter

Analista forense da polícia, Dexter Morgan ficou órfão ainda criança e foi adotado por um oficial da corporação. Observando um potencial assassino no menino, o pai passa a ensiná-lo a usar esse instinto contra aquelas pessoas que merecem ser mortas. Assim, quando cresce, ele passa a perseguir assassinos propensos a matar pessoas inocentes e provar a culpa dos mesmos. Dexter precisa, no entanto, esconder sua natureza e parecer "normal" perante a sociedade. Seus "fantasmas" e alguns poucos contatos pessoas humanizam Dexter, mas ele ainda é um assassino de assassinos.

Tony Soprano (James Gandolfini) - The Sopranos

Membro de uma família ligada à máfia, Tony Soprano alterna uma personalidade violenta com conflitos psicológicos que conferem empatia ao personagem. Sua rotina de negócios escusos é interrompida por crises de pânico, tratados por uma terapeuta. A personalidade forte do mafioso se contrapõe aos detalhes íntimos de sua vida pessoal, marcada por problemas no casamento e questões conflitantes nas relações da família. As contradições de Tony Soprano fizeram dele uma referência de anti-herói na televisão mundial.

Norman Bates (Freddie Highmore) - Bates Motel

Não dava para deixar de fora esse clássico personagem do cinema, que ganhou, agora, novos contornos na televisão. Em "Bates Motel", Norman Bates é só um adolescente que começa a viver sentimentos comuns da idade. Mesmo assim, em alguns lapsos, ele já dá sinais de como o famoso psicopata que se tornará vai agir no futuro. Isso sem falar na influência e obsessão que nutre pela mãe, Norma (Vera Farmiga). Até dá para sentir simpatia por Norman, em seus momentos de lucidez. Mas, não dá para esquecer que, no cultuado filme de Alfred Hitchcock, ele foi responsável por esfaquear uma mulher no chuveiro...

Em tempo: Dois anti-heróis da lista chamaram atenção em 2013 e foram eleitos pela revista norte-americana Time como os mais influentes do ano. Quem encabeça a lista é Walter White, de "Breaking Bad". Frank Underwood, de "House of Cards", também foi citado pela publicação.

Nenhum comentário:

Postar um comentário