sábado, 1 de fevereiro de 2014

Bons momentos finais não escondem falhas de Amor à Vida

César e Félix: aceitação no fim
Qualidade e audiência andam "de mãos dadas"? "Amor à Vida", primeira novela de Walcyr Carrasco no horário das 21 horas, mostrou que uma trama problemática e irregular pode cair nas graças do público, apesar de tudo. Segurando a audiência em frente à TV, os personagens carismáticos seguraram a novela e fizeram do folhetim um sucesso de público e nas redes sociais, recuperando uma parte da audiência perdida do horário nobre global. Mesmo assim, foi impossível ignorar as reviravoltas inverossímeis da trama, o texto didático e declamado do autor e o mau aproveitamento de personagens.
No último capítulo, a vilã Aline (Vanessa Giácomo) decidiu revelar a César (Antônio Fagundes) seu plano de vingança contra ele. Instigado com as revelações da mulher, César descobre que a ex-esposa Pilar (Susana Vieira) foi a responsável por provocar o acidente que matou a mãe de Aline e lesionou Mariah (Lúcia Veríssimo), a amante de César e mãe biológica da mocinha Paloma (Paola Oliveira). Tomados por um espírito generoso, os familiares perdoaram o erro de Pilar e a matriarca da família Khouri não foi castigada no fim.
Presa por seus plano maquiavélicos, Aline usou o dinheiro que tinha roubado de César para entrar em um esquema de fuga da cadeia com outras detentas. A vilã decidiu pular o muro do presídio durante uma briga entre as presas e acabou morrendo eletrocutada na cerca de segurança, que deveria estar desligada. O casal protagonista Bruno (Malvino Salvador) e Paloma, que já estavam sem história na trama há algum tempo, realizaram uma benção para selar a união. Bruno, assim como no primeiro capítulo, viu a mulher sofrer com o parto de seu filho mas, desta vez, tudo caminhou para o final feliz.
O ex-vilão Félix (Mateus Solano) foi o ponto alto do capítulo final de "Amor à Vida". Coube ao personagem os melhores momentos do encerramento da trama, entre eles, o tão esperado beijo gay entre ele e Niko (Thiago Fragoso). Depois de levar o pai para uma casa de praia e cuidar dele, Félix ainda conseguiu se reconciliar com o César, que não aceitava a opção sexual do filho. Em uma bela sequência, os dois selam a paz, para poderem viver juntos.
Márcia e Valdirene: destaques, apesar de tudo
"Amor à Vida" conseguiu conquistar o público, inegavelmente, por conta de seus personagens carismáticos. Graças à interpretação de Mateus Solano, o vilão Félix caiu nas graças da audiência, o que provocou sua redenção e o final feliz ao lado de um novo e inesperado amor. Márcia, papel da ótima Elizabeth Savalla, foi outro destaque do folhetim, mesmo nos momentos onde o autor parecia não saber o que fazer com a personagem. O mesmo pode-se dizer da piradinha Valdirene (Tatá Werneck) e o "palhaço" Carlito (Anderson Di Rizzi), que, apesar do talento, também sofreram com a falta de rumo para seus personagens. A atuação de Bruna Linzmeyer também deu destaque merecido para a história da autista LindaCésar, no início, também era um bom personagem da trama, mostrando suas qualidades e defeitos morais. Do meio para o final da trama, os rumos da história desfavoreceram o papel, que perdeu a importância.
A condução da trama e o texto, para mim, foram os erros mais grosseiros da novela. Querendo apresentar uma história ágil e surpreendente, Walcyr Carrasco perdeu a mão e o controle de "Amor à Vida". Apostando em muitas reviravoltas, o autor teve a oportunidade de explorar bons temas, mas só "gastou cartuchos". A abordagens de assuntos como alcoolismo, virgindade, lúpus, HIV e obesidade foram "jogados" no vendaval da história e, na mesma velocidade em que apareceram, se dissiparam. A rotina frenética de mudanças fizeram uma grande vítima na trama: Ninho (Juliano Cazarré) mudou de personalidade durante os 200 capítulos, pelo menos, umas quatro vezes e ficou descaracterizado.
Caio Castro e Maria Casadevall: sexo e nada mais
O texto de "Amor à Vida" foi outro ponto fraco. Declamado e didático ao extremo, o roteiro cansou e soou falso e robótico durante toda a novela. O didatismo, aliás, é uma característica de Walcyr Carrasco, que conseguiu maquiá-lo com tramas melhores em outras ocasiões e horários.
Com personagens carismático, "Amor à Vida" também foi a outro extremo e apresentou personagens sem função alguma para a história. José Wilker, Francisco Cuoco, Fúlvio Stefanini, Ary Fontoura, Nathália Thimberg, Carolina Kasting, Cristina Mutarelli, Neusa Maria Faro, Renata Castro Barbosa e Vera Mancini fizeram apenas figuração de luxo. Caio Castro e Maria Casadevall passaram meses transando em tudo quanto é canto... e mais nada fizeram!
Pesando prós e contras, "Amor à Vida" termina com saldo negativo no final. O bom final, aliado aos personagens carismáticos criados por Walcyr Carrasco, não foi capaz de esconder tantas falhas e irregularidades da história.

O esperado beijo gay: Doeu?
Apesar dos defeitos, "Amor à Vida" deixou sua marca na história da teledramaturgia brasileira. A novela será lembrada por ter sido a primeira a apresentar um beijo entre dois homens no horário mais concorrido e caro da TV Globo. Para selar o final feliz de Félix e Niko, o autor escreveu um beijo entre os personagens, que foi ao ar no último capítulo, contrariando os "moralistas" e preconceituosos de plantão.
Confesso que sempre achei a discussão sobre o momento de exibir um beijo gay na televisão um pouco equivocada e, até mesmo, besta. Nos Estados Unidos, por exemplo, há vários anos, os produtos televisivos de dramaturgia já exibem beijos e outras demonstrações de afeto entre pessoas do mesmo sexo sem que, para isso, houvesse repercussão ou polemização do tema anterior à exibição da cena. O beijo está lá, faz parte da história e pronto. 
Também não podemos esquecer que o público, apesar de se dizer liberal, é muito conservador no Brasil, assim como os órgãos que regulamentam o conteúdo apresentado na televisão aberta. Neste sentido, cenas como a de demonstração de amor entre Niko e Félix são importantes para quebrar paradigmas e evoluir a discussão sobre direitos iguais e respeito às escolhas do próximo. "Amor à Vida" mostrou o beijo entre dois homens e eu pergunto: doeu? Se incomodou, aperte o controle remoto e troque de canal.

Nenhum comentário:

Postar um comentário