segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Ausência de protagonista marcante enfraquece terceira temporada de Narcos


Desde que foi anunciada, a terceira temporada de "Narcos" sempre deixou dúvidas sobre o desenvolvimento da série sem a figura de Pablo Escobar (Wagner Moura), personagem central dos dois primeiros anos da série. Depois de assistir aos novos episódios, disponíveis no serviço de streaming Netflix, pude perceber que, em relação a qualidade, pouca coisa mudou. Há, no entanto, um elemento que a série ficou devendo: a presença de um bom protagonista.
A história do terceiro ano de "Narcos" é retomada após a morte de Escobar, quando o Cartel de Cali assume o controle das operações do tráfico de drogas na Colômbia, que, por consequência, fornece cocaína para o mundo todo. Com o mercado sendo controlado pelos quatro Cavalheiros de Cali, como são conhecidos os chefões do tráfico, a polícia norte-americana se vê diante de uma nova operação.
Ainda sentindo os reflexos das escolhas feitas na captura de Escobar, o agente Peña (Pedro Pascal) não mede esforços para colocar o Cartel de Cali na cadeia, mas volta a esbarrar em questões políticas e burocráticas. Lidando com o corrupção das autoridades colombianas, compradas pelos chefes do tráfico, a polícia norte-americana busca formas de encurralar os bandidos e mantê-los atrás das grades.
Chefiando a operação, Peña conta, agora, com a ajuda dos agentes Feistl (Michael Stahl-David) e Van Ness (Matt Whelan), que tentam prender os membros do cartel, mesmo com o andamento das negociações com o governo para que os Cavalheiros de Cali se entreguem às autoridades. Essa negociação, aliás, causa divergências entre os chefes do tráfico, especialmente entre Gilberto (Damián Alcázar) e Miguel Rodriguez (Francisco Denis).
A operação dos policiais norte-americanos passa a contar, ainda, com as informações de Jorge Salcedo (Matias Varela), o chefe da segurança de Miguel Rodriguez, que se alia às autoridades para livrar a si mesmo e a família dos perigos que rondam a relação com o Cartel de Cali.
É preciso ser justo e dizer que a terceira temporada de "Narcos" consegue manter qualidades importantes vistas nos outros anos da série, como dar ideia da dimensão sobre a influência do narcotráfico no período e mostrar como as políticas norte-americana e colombiana lidam com esse poder paralelo. Nesse aspecto, o roteiro se mostra eficiente, mesclando a ficção com acontecimentos reais da época e criando sequências e movimentos bastante coerentes.
Mesmo com tais qualidades, "Narcos" carregou um problema, nesta terceira temporada, que impediu que a série deslanchasse ainda mais. Ficou faltando uma figura central, um protagonista que servisse de fio condutor para todos os acontecimentos. Sejam os agentes norte-americanos ou os chefes do tráfico, nenhum dos novos personagens foi construído com a mesma complexidade ou importância de Escobar. Nem mesmo Peña ganhou destaque nos novos episódios, ficando "apagado" ao longo da temporada.
É compreensível que o roteiro tenha assumido a intenção de contar uma história sobre o narcotráfico, ao invés de focar em uma única figura, mas isso não justifica o mau aproveitamento de personagens interessantes, que poderiam ser melhor explorados. Peña e os membros do Cartel de Cali nunca "acontecem" na série e isso se deve a uma abordagem superficial e pulverizada dos personagens.
A terceira temporada de "Narcos" esteve longe de ser ruim e isso se deve ao fato de o roteiro ter mantido interessantes as discussões políticas e burocráticas que cercaram o combate às drogas no período. O desenvolvimento dos personagens, no entanto, que resultou na ausência de um protagonista interessante, enfraqueceu a narrativa e me fez desejar que esse problema seja sanado na quarta temporada, que vai deixar a Colômbia e falar do tráfico no México. Quem sabe lá surja uma nova figura que desperte a mesma atenção que Escobar já teve.

NARCOS (terceira temporada)

ONDE: Netflix (todos os episódios disponíveis)

COTAÇÃO: ★★★ (boa)


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