Narrativa ousada de "Justiça" precisa virar hábito na TV aberta brasileira

Divulgação/TV Globo

Quando fazemos uma comparação entre as séries de televisão norte-americanas e as brasileiras, percebemos uma clara diferença nos estilos de narrativas. Por aqui, os autores ainda estão muito habituados ao gênero da telenovela e, por isso, ainda há uma distância para alcançar a qualidade dos roteiros mais curtos e complexos. "Justiça", série que a TV Globo terminou de exibir nesta sexta-feira (23), foi um imenso passo para que a nossa televisão aberta possa alcançar um padrão semelhante de qualidade.
Escrita por Manuela Dias, a série se mostrou um acerto em muitos sentidos. O primeiro é a narrativa em si, que trouxe quatro tramas independentes, que acabam se cruzando por detalhes, ações ou personagens. A cada dia da semana, exceto às quartas-feiras (dia de futebol na grade da emissora), um protagonista mostra como foi afetado pela justiça (ou pela ausência dela). O fio condutor da história está relacionado às prisões de Vicente (Jesuíta Barbosa), Fátima (Adriana Esteves), Rose (Jéssica Ellen) e Maurício (Cauã Reymond), todos condenados, por algum motivo, a sete anos de prisão. As tramas, então, se desenvolvem a partir do cumprimento das penas dos personagens e o que cada um faz com a vida a partir daí.
Vicente sai da cadeia depois de ser preso por assassinar a tiros a namorada Isabela (Marina Ruy Barbosa), que o traiu. Ele, então, cumpre sua pena e se arrepende do crime que cometeu, mas não sabe que, do lado de fora dos muros do presídio, a ex-sogra Elisa (Débora Bloch) se prepara para matá-lo e, assim, vingar a morte da filha. Por insistência do namorado (Cássio Gabus Mendes), ela acaba dando uma chance de redenção para Vicente e até se afeiçoa ao rapaz, chegando ao ponto de se sentir atraída e ter um caso com ele. No fim, os dois acabam sofrendo um acidente de carro e, apesar de não ter tido coragem de matar o rapaz antes, ela deixa Vicente sem socorro e ele acaba morrendo.
Fátima, que trabalha na casa de Elisa como doméstica, também tem seu destino traçado quando, para salvar seu filho, mata o cachorro do vizinho Douglas (Enrique Diaz), um policial truculento que, para se vingar, planta drogas na casa dela, provocando a prisão da empregada. Sete anos depois, ela sai da cadeia e descobre que sua família foi estraçalhada pelos acontecimentos. Depois da morte do marido, esfaqueado na mesma semana em que ela foi presa, a filha Mayara (Julia Dalavia) virou prostituta e se aproximou de Kellen (Leandra Leal), a mulher de Douglas, em busca de vingança. O filho mais novo cresceu nas ruas e se tornou um trombadinha. Ao invés da vingança, Fátima acaba escolhendo o caminho oposto e, assim, concede o perdão a Douglas e reconstrói a vida.
Também presa há sete anos, acusada de ser traficante de drogas pelo comportamento racista de Douglas, a jovem Rose tenta retomar a vida e a relação com a amiga Débora (Luisa Arraes), que acabou não prestando ajuda a Rosa na noite da prisão. Tentando se refazer, ela retoma sua relação com Celso (Vladimir Brichta) e se empenha em ajudar Débora a descobrir a identidade do homem que estuprou a amiga, para fazê-lo pagar pelo crime, uma vez que a polícia nunca fez nada. No fim, enquanto Rose e Celso constroem uma vida juntos e seguem em frente, Débora não consegue desistir da vingança contra o estuprador e, depois de persegui-lo, o mata com suas próprias mãos. Não conseguindo conviver com o que fez, ela some sem destino.
Divulgação/TV Globo
A quarta história mostra a busca por "justiça" de Maurício, que teve a esposa, Beatriz (Marjorie Estiano), atropelada por Antenor (Antonio Calloni), agora um político influente. Ele é preso por, a pedido da mulher, praticar eutanásia nela, que, por ter ficado tetraplégica, teve uma vida distante da dança, sua profissão. Depois de cumprir a pena, ele usa o dinheiro que juntou, fazendo a contabilidade de bandidos, para apoiar a candidatura de Antenor a governador, mas, ao mesmo tempo, abrindo caminho para destruí-lo. Quando consegue ver o político corrupto preso, Maurício junta o dinheiro que sobrou e também some sem rumo, encontrando Débora pelo caminho.
A inteligência do roteiro de "Justiça" é algo que precisa se tornar constante na dramaturgia brasileira. Com diálogos fortes, a trama se construiu como um quebra-cabeça, já que a narrativa, muitas vezes em ordem não-cronológica, exigia que o público "juntasse as peças" e organizasse a cronologia na cabeça. É bem verdade que algumas histórias, por terem mais elementos ambíguos e personagens ricos, renderam mais que outras, como o caso das tramas de Elisa e Fátima, mas, no resultado final, houve um equilíbrio, que fez com que os enredos menos atrativos, de Rose e Maurício, não fossem prejudicados.
"Justiça" também proporcionou reflexão e fez com que pudéssemos avaliar nossos padrões morais. O que você faria se sua filha fosse assassinada pelo namorado? Seria fácil perdoá-lo, depois de um tempo na cadeia, ou o desejo de vingança falaria mais alto? É claro que, se isso ficar apenas no campo da teoria, nos basearemos nos nossos conceitos de moral para elaborarmos uma resposta. Mesmo assim, isso só ficaria como uma distante hipótese. A série, no entanto, quis contestar esse tipo de pensamento e introduzir o conceito de que "na prática, a teoria é outra". Será que, diante desse fato real, teríamos a mesma atitude que imaginamos? É possível condenar uma mãe que deseja a morte do assassino da filha? São temas que, com certeza, quem acompanhou, está pensando até agora.
"Justiça" foi uma grata surpresa, inclusive pela qualidade do texto de Manuela Dias, que abre um caminho interessante e que deve ser repetido por outros. Espero que a série seja um pontapé para que a televisão aberta brasileira invista mais em no gênero e, assim, presenteie o público com esse tipo de entretenimento, que não fica devendo em nada às produções estrangeiras.

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