Carlos Lombardi acerta na Record após anos de inércia na Globo

Autor de muitas comédias do horário das sete da TV Globo, como "Quatro por Quatro", "Bebê a Bordo", "Kubanacan" e "Pé na Jaca", Carlos Lombardi estava em uma posição confortável na emissora. Trabalhando há 31 anos na empresa, ele decidiu ir para a Record escrever suas novelas e, agora, mostra que fez o certo. Em inércia na Globo, repetindo fórmulas e personagens insistentemente, o autor colocou no ar, na concorrência, "Pecado Mortal", uma história ágil e irônica sobre a influência do jogo do bicho no Rio de Janeiro dos anos 70.
O Morro do Pinguim é o cenário principal do folhetim de Lombardi. A trama começa nos anos 40, quando o bicheiro Cebolão (Gracindo Jr.) se apresenta como o grande chefe da favela. A posição do chefão desperta a ambição de Donana (Maytê Piragibe), esposa de Michelle Vêneto (Henrique Guimarães), o chefe de segurança de Cebolão. Aproveitando um conflito na favela, Donana permite que Cebolão morra para que, assim, seu marido possa assumir o controle do morro.
Na mesma noite em que Michelle toma o poder da favela, Donana vai se encontrar com Stella (Marcela Barrozo), a amante de seu marido. Prestes a dar à luz ao segundo filho de Michelle, sem que ele saiba da existência de nenhum dos filhos, Stella é forçada a entregar as crianças para Donana que, em seguida, ordena a morte da rival.
Trinta anos depois, Michelle (Luiz Guilherme) ainda comanda o jogo do bicho na zona sul do Rio de Janeiro. Casado há 38 anos com Donana (Jussara Freire), eles são pais de quatro filhos: Otávio (Felipe Cardoso), Juliano (Henrique Guimarães), Lívia (Tatyane Goulart) e Marco Antônio (Fernando Pavão), que se afastou do convívio dos Vêneto e formou uma família ao lado da esposa, Patrícia (Simone Spoladore), e dos filhos. Escondendo seu passado com a contravenção, Carlão, novo nome adotado por Marco Antônio, ele leva uma vida comum até ser confrontado pela família para assumir seu lugar no Morro do Pinguim. 
O passado também volta para assombrar Donana, que descobre, depois de muitos anos, que Stella (Betty Lago) está viva e querendo rever os filhos Otávio e Marco Antônio, tirados dela e criados por Donana. Disposta a se vingar dos Vêneto, Stella também começa a se aproximar dos filhos, especialmente de Marco Antônio.
Apesar de comandarem os negócios na zona sul carioca, o poder dos Vêneto é constantemente ameaçado pelos outros bicheiros, especialmente pelos irmãos Danilo (Gustavo Machado) e Dorotéia Ashcar (Paloma Duarte), mesmo ela nutrindo uma paixão por Marco Antônio. Na década de 70, o jogo do bicho ainda enfrenta a influência do tráfico de drogas, especialmente a cocaína, que começa a penetrar nos morros, para desespero dos bicheiros que controlam as favelas. 
A truculência do corrupto detetive Picasso (Vitor Hugo) também movimenta a história. A obsessão de Picasso por Marco Antônio, que se revela meio-irmão do detetive, e a perseguição constante ao herdeiro dos Vêneto influencia nos rumos da trama.
Acostumado às comédias leves da Globo, Carlos Lombardi usa e abusa de novos elementos em sua estreia na Record. O autor aposta em uma trama mais madura, com personagens melhor desenhados e humor afiado, com altas doses de ironia. Algumas marcas do autor, como as sequências de ação, ainda estão presentes, mas, agora, são mais bem desenvolvidas. Exibido na última quinta-feira (13), o centésimo capítulo de "Pecado Mortal" também apresentou um ótimo e incomum recurso dramatúrgico de Lombardi: capaz de tudo para defender a família, Marco Antônio foi capaz de matar dois homens que participavam de uma tocaia para matar Patrícia e os filhos do casal. Raro em folhetins, o conflito do protagonista, que foi capaz de "sujar" as mãos pelos entes queridos, promete gerar bons momentos para a novela.
A presença de ótimos atores ajuda "Pecado Mortal". Jussara Freire, excelente atriz, prende a atenção com sua Donana, personagem que divide as vilanias da novela com Picasso, em boa e debochada atuação de Vitor Hugo. Simone Spoladore, Paloma Duarte, Luiz Guilherme, Betty Lago, Fernando Pavão e Denise Del Vecchio também fazem ótimas participações.
Apesar das qualidades, "Pecado Mortal" enfrenta um grande problema: seus bastidores. Depois de ser exibida durante quase quatro meses na faixa das 22 horas, a novela mudou de horário e, desde o dia 3 de setembro, está sendo exibida às 21h15. Em uma manobra que desrespeita o telespectador que já acompanhava o folhetim, a Record ainda prejudica um ótimo produto, que passa a concorrer com o tradicional horário nobre da Globo. 
Além da falta de profissionalismo da emissora em alterar o horário de exibição da novela, "Pecado Mortal" também sofre mais uma decisão equivocada: a saída do diretor-geral, Alexandre Avancini, designado para implantar um novo horário de dramaturgia na Record. O fato mostra um certo descaso da emissora com o folhetim, que também merece ser mais valorizado com investimento em qualidade de produção e em chamadas de divulgação na própria programação do canal.
Enfrentando dificuldades por trás das câmeras, "Pecado Mortal" resiste bravamente com a qualidade de sua história e os ótimos atores. O folhetim já figura entre as melhores tramas que a Record exibiu, mas deve chegar ao fim sem conquistar o grande público. Uma pena... é a novela certa no canal errado.

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