"Filhos da Pátria": passado muito presente ou presente muito passado?

Divulgação/TV Globo
Acabou a mamata no Brasil? Meninos vestem azul e as meninas rosa? Afinal, foi golpe ou não? Essas e outras questões do gênero estão muito vivas no nosso dia a dia, mas na série "Filhos da Pátria" elas aparecem em um contexto histórico diferente. E, algumas vezes, não é nem o caso de apenas transportar discussões atuais para o passado, mas retratar a repetição de erros e atrasos da política brasileira.
Na segunda temporada, a série de Bruno Mazzeo passa a ser ambientada nos anos 30, quando Getúlio Vargas tira Washington Luís do poder e assume o Palácio do Catete, então capital da República. Enquanto os apoiadores do gaúcho chamam aquele movimento de revolução, para tentar amenizar os efeitos das ações, outros identificam que Vargas, na verdade, aplicou um golpe e rompeu com a política do café com leite, que privilegiava o eixo São Paulo-Minas Gerais.
Nesse cenário, a série foca na rotina da família Bulhosa, diretamente afetada pelas mudanças políticas do país, a começar por Geraldo (Alexandre Nero), o chefe do núcleo familiar. Surpreendido pelo início da Era Vargas, o funcionário público é tomado por incertezas sobre o futuro profissional, mas logo é inserido no novo governo, beneficiado especialmente pela interferência de Pacheco (Matheus Nachtergaele), que sempre dá um jeito de levar vantagem em situações adversas.
Geraldo é casado com Maria Teresa (Fernanda Torres), uma mulher interesseira e inconformada com a passividade do marido. Sem entender nada sobre o golpe de Vargas, ela sai às ruas para defender o militarismo e vê em futilidades razões para entusiasmo. Em determinado momento, a matriarca dos Bulhosa faz um sinal de arma com a mão, algo que seguimos vendo por aí.
Os filhos do casal também são impactados pela situação política da época. Geraldinho (Johnny Massaro), um bon vivant politicamente alienado, tenta levar vantagem no cenário que se impunha, sem nem ao menos tentar entender o contexto dessas mudanças. Por isso, grita palavras em favor da revolução, mas só está interessado no próprio umbigo. Já Catarina (Lara Tremouroux) tenta impor independência e ideias feministas nesse caótico núcleo familiar.
Depois de um primeiro ano ambientado em 1822, no período da Independência, "Filhos da Pátria" transporta os personagens para outra época, mas continua com a intenção de fazer uma comédia crítica sobre a política brasileira. O cenário dos anos 30 é um instrumento para discutir questões ainda bastante atuais e nos fazer refletir sobre ciclos que se repetem na História do país.
Divulgação/TV Globo
Com muita inteligência e pertinência, a série coloca no passado o famoso discurso sobre o "fim da mamata", usado por políticos oportunistas para justificar ações radicais. O impeachment de Dilma Rousseff, mesmo não sendo textualmente citado, também está presente. Em determinado momento, Maria Teresa se entusiasma quando descobre que um governante pode ser deposto "com facilidade" e ainda solta um "tchau querido" para Washington Luís.
A personagem de Fernanda Torres, aliás, é responsável por outro momento muito atual da produção. Revoltada com a liberdade conquistada pela filha e com Geraldinho vestido de mulher, Maria Teresa apela para um discurso pseudo-religioso e parafraseia uma certa ministra ao dizer que "menino veste azul e menina veste rosa".
Mais do que apenas transportar questões atuais para o passado, "Filhos da Pátria", na verdade, quer mostrar que a História do Brasil tem uma característica cíclica e que muitos movimentos se repetem ao longo do tempo. Usando o humor, o espectador percebe que evoluímos muito pouco e continuamos a produzir erros que podem nos custar muito no futuro. 
Muito focada na política, a série também reserva momentos para a discussão de problemas sociais. Depois de mostrar a exploração da escravidão na primeira temporada, a produção mostra, agora, como a situação dos negros havia mudado pouco nos anos 30 e ainda segue desigual. Ao comentar a situação em que vive, Lucélia (Jéssica Ellen), a empregada dos Bulhosa, diz que a única coisa que tinha mudado é que a senzala foi transformada em um "quartinho de empregada".
Inspirada e bastante explícita, "Filhos da Pátria" promete ser uma importante fonte de reflexão sobre o Brasil, usando a poderosa arma do humor para críticas e discussões relevantes. É claro que vai aparecer quem não queira assimilar esses debates, mas aí já é outra história. O passado está muito presente ou seria o presente que está muito passado?

FILHOS DA PÁTRIA (segunda temporada)

ONDE: TV Globo (terças-feiras) e Globoplay

COTAÇÃO: ★★★★ (ótima)

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