"La Casa de Papel" segue refém da fórmula que a consagrou e prova que já deveria ter acabado

Divulgação/Netflix

Fenômeno de audiência da plataforma de streaming Netflix, a série espanhola "La Casa de Papel" se mostrou, desde o início, uma história sustentada por absurdos e parecendo sempre testar a paciência dos espectadores, muitas vezes, inclusive, subestimando a inteligência deles. Isso chega ao ápice na quarta parte da produção, lançada na semana passada. Refém da fórmula que a consagrou, a trama parece cada vez mais desgastada, ainda que inflada por uma evidente melhora em aspectos técnicos, e perdeu uma boa oportunidade de terminar enquanto ainda tem uma legião de seguidores.
Em oito episódios, a quarta parte da série continua mostrando como o grupo comandado pelo Professor (Álvaro Morte) conduz o plano para roubar toneladas de ouro do Banco da Espanha. Logo no início, o bando tenta salvar a vida de Nairóbi (Alba Flores), alvejada em uma armadilha arquitetada pela investigadora Alicia Sierra (Najwa Nimri). Ela é salva pelas milagrosas habilidades médicas de Tóquio (Úrsula Corberó), que, mesmo sem ter se dedicado a anos de estudo em uma faculdade de medicina, consegue operar a companheira, inclusive sem a orientação do profissional acionado para isso.
Enquanto esse salvamento é feito, o Professor foge de um cerco policial e tenta descobrir se Lisboa (Itziar Ituño) foi executada ou capturada pelas autoridades. Confirmada a segunda opção, a ex-inspetora é levada para a tenda em frente ao Banco da Espanha, onde Alicia Sierra e Tamayo (Fernando Cayo) tentam convencê-la a delatar os colegas em troca de um alívio na pena.
A situação fica caótica dentro do Banco da Espanha, onde estão os demais integrantes do bando. Depois de um golpe dado por Tóquio para tirar Palermo (Rodrigo De la Serna) do comando do plano, o explosivo ex-líder é feito prisioneiro e passa a conspirar com Gandía (José Manuel Poga), o chefe de segurança, para tentar restabelecer a ordem. Isso resulta na fuga de Gandía e em uma verdadeira caçada no local, recurso que mais pareceu uma forma de postergar o desfecho da história. Os episódios também evidenciam conflitos entre Rio (Miguel Herrán), Denver (Jaime Lorente) e Estocolmo (Esther Acebo), além de revelar atritos entre os reféns do assalto.
A quarta parte de "La Casa de Papel" deixou ainda mais claro que a produção não consegue se libertar da fórmula que a tornou um sucesso no mundo todo. Seguindo rigorosamente a mesma cartilha do primeiro assalto planejado pelos personagens, a série faz parecer que a ação das duas primeiras partes, ambientadas na Casa da Moeda, não acabou. A dinâmica de ação dos personagens e os conflitos estabelecidos acontecem exatamente da mesma maneira, apenas trocando algumas peças de lugar. Por mais que muitos ainda sigam fiéis à produção, não usar a criatividade para renovar a trama pode ser um risco.
Divulgação/Netflix
Os novos episódios da atração também seguem a cartilha dos anos anteriores em relação aos problemas criativos. Com dificuldade de resolver histórias, os roteiristas se escoram em tramas paralelas desnecessárias e apelam para verdadeiros absurdos para atrasar desfechos, testando a paciência e até a inteligência do espectador. Habilidades milagrosas, curas inexplicáveis e táticas mirabolantes são elementos usados à exaustão para fazer os episódios caminharem.
"La Casa de Papel" continua, ainda, exagerando do recurso conhecido como "deus ex-machina", termo utilizado para apontar resoluções, quase sempre inverossímeis, que surgem do nada e resolvem todos os impasses dos personagens. Para citar um exemplo, isso fica claro nos momentos em que Alicia Sierra tem uma "revelação" que a faz descobrir o paradeiro do Professor.
O último episódio da quarta parte é uma verdadeira perda de tempo para a história. Ao invés de resolver todos os conflitos da temporada, encerrando o assalto ao Banco da Espanha, o roteiro apela por prolongar os acontecimentos por mais uma temporada. Apostar no fôlego da mesma trama por mais uma leva de episódios, contando apenas com a popularidade da série, parece um erro.
Para não dizerem que só apontei defeitos, é preciso reconhecer que, desde a terceira parte, quando a Netflix assumiu a produção dos episódios, houve uma ganho considerável em recursos técnicos, o que serviu como uma injeção de fôlego na proposta de seguir com a mesma dinâmica do crime ambientado na Casa da Moeda. O upgrade de explosões e outras sequências de ação é quase uma "cortina de fumaça" para mascarar os problemas criativos.
"La Casa de Papel" provou que não consegue se libertar da fórmula que a tornou conhecida no mundo todo. Por enquanto, parece que isso ainda não foi suficiente para abalar a fidelidade do público com a história, mas, se isso não mudar, logo a situação pode ser outra. Não é segredo para ninguém que nunca gostei da série, porém, até dava para entender a renovação da série depois da segunda parte. Agora, superados os novos episódios, fica evidente que a produção já deveria ter acabado.

LA CASA DE PAPEL (quarta parte)

ONDE: Netflix (todos os episódios disponíveis)

COTAÇÃO: ★ (ruim)

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