Temporada final de "Dark" justifica escolhas do roteiro e não se perde ao amarrar tramas

Divulgação/Netflix

A ficção científica alemã "Dark" se apresentou, desde o início, como um labirinto de mistérios, teorias e incertezas, que foi capaz de prender os espectadores em becos sem saída e caminhos repetidos por conta da complexidade da história. Não por acaso, a série fez diversas referências ao mito grego de Ariadne, a filha do rei de Tebas que se apaixonou por Teseu.
Tentando provar seu heroísmo, Teseu se ofereceu para enfrentar o Minotauro que vivia no labirinto construído do Dédalo. Antes da tarefa, ele recebeu da apaixonada Ariadne uma espada e um novelo de linha, para que encontrasse o caminho de volta. Além das citações, "Dark" incorporou na trama o recurso do fio que servia para orientação, que estava na caverna que abrigava os portais para as viagens no tempo. Com o lançamento dos episódios da terceira e última temporada, é possível perceber que o mito grego inspirou ainda mais o roteiro.
Antes de tudo, é preciso dizer que não dá para falar do final de "Dark" sem spoilers, portanto, mesmo tentando economizar nas palavras, algumas revelações vão precisar ser citadas. Para quem ainda não terminou de assistir, sugiro não continuar com a leitura. Certo? Vai continuar? Por sua conta e risco então...
Assim como fez Ariadne, os roteiristas de "Dark" ofereceram, lá no início da primeira temporada, um novelo de linha que apontava o caminho para o desfecho da trama. Essa indicação foi simbolizada pela triquetra, que estava presente na Tábua de Esmeralda; no caderno de couro, que passou pelas mãos de diversos personagens; e nas passagens usadas para as viagens no tempo. Além de apontar tempos conectados, agora fica claro que ela também indicava que a resposta para os eventos que ocorreram em Winden estava em três mundos interligados.
Depois de se salvar do apocalipse, Jonas (Louis Hofmann) é levado pela Martha do mundo alternativo (Lisa Vicari) e, nesse local, descobre algumas diferenças em relação à vida que ele conhecia até então. Por lá, por exemplo, Mikkel (Daan Lennard Liebrenz) não some, ainda que a cidade esteja às voltas com outro desaparecimento. Nesse segundo mundo, como já tinha sido sinalizado, Jonas não existe e, por consequência, Adam (Dietrich Hollinderbäumer) não conduz uma guerra contra o tempo. Quem faz isso nesse cenário é Eva (Barbara Nüsse), a versão mais velha de Martha.
Adam e Eva manipulam e orientam os personagens de acordo com os próprios interesses, interferindo, inclusive, um no mundo do outro para que os ciclos se repitam. É a interferência dos dois que impede que o nó que existe entre os acontecimentos não seja desatado e, por isso, tudo ocorre em um eterno loop.
Antes de continuar com o raciocínio sobre a conclusão da trama, é preciso dizer que, além de tempo e mundos diferentes, "Dark" acrescenta um elemento novo à terceira temporada: realidades distintas. Esse conceito faz com que acontecimentos ganhem desdobramentos sobrepostos, o que possibilita que os personagens tenham diferentes destinos em um mesmo tempo ou mundo. Parece confuso e é mesmo, mas a série conduz isso de uma maneira muito orgânica e que deixa tudo claro no final. Essa camada de realidades é importante para preencher algumas lacunas do desfecho da história.
Se os acontecimentos nos mundos de Adam e Eva estão presos a um ciclo interminável, como quebrar isso? A resposta para a maior pergunta de "Dark" fica escondida em um terceiro mundo, que serviu de origem para aqueles que conhecemos até então. A chave para que o nó seja desatado envolve um fato da vida do relojoeiro Tannhaus (Christian Steyer) no mundo de origem, que gerou a invenção da máquina do tempo. Versões de Jonas e Martha (lembram que eu falei de realidades distintas?) viajam a esse terceiro mundo com o propósito de quebrar os ciclos e restabelecer a ordem de vez.
Desde o final da segunda temporada, estava resistente sobre a inclusão na história das viagens entre mundos, achava que as tramas em tempos distintos já eram ricas o bastante para sustentar a série. Foi bom perceber que os roteiristas conseguiram mostrar a importância dessa proposta para o desfecho, transmitindo uma mensagem sobre olhar além da dualidade predominante na vida. Eles até foram além e, como se a complexidade não fosse suficiente, ainda acrescentaram o conceito de realidades distintas, o que trouxe um movimento a mais para a produção. Foi satisfatório, também, perceber que o roteiro não se perdeu ao unir tudo isso no final.
Divulgação/Netflix
Mesmo conseguindo se manter interessante e bem amarrada até o último episódio, "Dark" vacilou ao se escorar em um dos conceitos explorados pela história para encerrar a trajetória dos personagens. A jogada das realidades sobrepostas criou um desfecho fácil e, em certa medida, preguiçoso para o fio condutor da série. Adam é avisado pela Claudia mais velha (Lisa Kreuzer) sobre a existência do mundo de origem, que descobriu todo o segredo da história do nada, sem qualquer experimento ou explicação mais complexa. Depois de anos pensando, a ideia e a certeza vieram à cabeça dela. Esse recurso dramatúrgico, que é conhecido como Deus Ex-Machina, enfraqueceu o fim da atração, que tinha mais potencial de impacto. Na soma do todo, no entanto, os efeitos disso não foram tão sentidos.
No mais, "Dark" não decepcionou os espectadores e explicou as principais dúvidas deixadas nas temporadas anteriores, como a identidade dos pais de Noah (Mark Waschke) e Agnes (Antje Traue); como Charlotte (Karoline Eichhorn) foi levada, ainda bebê, para ser criada por Tannhaus; e para onde o Jonas adulto (Andreas Pietschmann) tinha levado Magnus (Christian Hutcherson), Bartosz (Paul Lux) e Franziska (Gina Stiebitz) depois do apocalipse. Todas essas respostas estão ligadas a ações que impediam que os ciclos fossem quebrados.
Ficou esclarecido, ainda, outro mistério que tinha sido gerado pelos trailers lançados antes da estreia: a identidade do homem que tinha um corte na boca e que aparecia, ao lado de suas versões criança e mais velha, colocando fogo na sede do Sic Mundus. Atenção, quem não quer o spoiler, fuja: o sujeito, que não tem nome, é filho de Jonas e da Martha do mundo paralelo. Ele representa uma conexão entre os dois mundos e não só interferiu em alguns acontecimentos importantes da série, como também era o pai de Tronte (Walter Kreye), marido do Agnes, o tal pastor que perdeu a fé citado no segundo ano.
Alvos de teorias sobre a participação nos principais mistérios da série, alguns personagens, como Aleksander Tiedemann (Peter Benedict) e Peter Doppler (Stephan Kampwirth), tiveram desfechos menos impactantes do que o esperado. Já Agnes e Tronte deixaram a impressão de que poderiam ser melhor aproveitados, mas, de novo, isso não teve grandes efeitos no resultado final.
No fim das contas, mesmo com escorregadas eventuais, "Dark" teve como grande qualidade a capacidade de mobilizar e manter o interesse dos espectadores com uma trama complexa e inteligente. Apresentando um final satisfatório e cheio de reflexões, a última temporada conseguiu não se perder nas propostas do roteiro e explicou as principais dúvidas deixadas anteriormente. Não é vergonha nenhuma ter que assistir a série mais de uma vez para tentar não perder nenhum detalhe. Na verdade, é até uma forma de valorizar ainda mais um entretenimento dessa qualidade.

DARK (terceira e última temporada)

ONDE: Netflix (todos os episódios disponíveis)

COTAÇÃO: ★★★★ (ótima)

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